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feito por viajantes para quem ama viajar.

Kombis

Não sei bem dizer o motivo que me faz gostar delas.

É como um pré adolescente que de repente olha para uma certa garotinha da sua sala de aula e páááá… Paixão a primeira vista.  Ela sempre esteve ali, estudam juntos a anos, mas só agora que aflorou nele aquele sentimento misto entre ser homem ou continuar criança, e passa a olhar para a menina com outros olhos…

E assim como a garotinha, a kombi sempre esteve presente na minha vida, corriqueira e desapercebida. Ir de kombi para a escola, precisar de um carreto, comprar aquele caldo de cana (com limão), ou a tradicional amarelo ouro que para na porta da sua casa trazendo um famoso sedex… quem nunca?

E nem tente broxar minhas lembranças, alegando que isso são coisas de um passado distante ou um estilo de vida retrô de mais um cara que curte vintage. Você só pode fazer pouco disso se não souber o que é uma kombi Zero km, tinindo de nova, estacionada na vitrine de uma concessionária. E isso só é tangível se você tiver  menos de três anos de idade.

Isso mesmo amigo, a velha senhora, que nasceu lá nos anos 50, seguiu firme e forte sendo ainda produzida em pleno século XXI.

Ahhh o século 21! A era do consumível, do descartável, do estilo clean e seus tons de cinza.  

Pensa num século chocho, sem vida, imediatista e totalmente sem graça.

Sim, me refiro aos carros, estes que você vê na rua e mal consegue reconhecer o modelo, mitigados ao termo da moda: geração.

Automóveis consagrados, nomes lendários de veículos que vem sofrendo drásticas mudanças em suas precoces gerações e cada vez mais vão perdendo sua essência e identidade. Não são mais os mesmos carros, só herdaram os nomes e mais nada.

É triste você olhar para um automóvel na rua e precisar se perguntar: que carro é esse ?

Não são mais como a Kombi ou outros antigos lendários que não importa seu ano de fabricação ou modelo, de longe você bate o olho e reconhece.

Sim, essa é a era do consumismo. As novas gerações estão ai cada vez mais para provar que o que você tem é obsoleto, saiu da moda, como uma postagem de ontem no facebook, não tem mais graça, não serve mais, passou.

E é assim com os carros, celulares, eletroeletrônicos, vestuários, com tudo. Esse é o século em que vivemos. Essa é a era em que as lendas vão chegando ao seu fim.

Nesse mundo automotivo se tem algo ainda pior do que essa descartabilidade descumunal, são as cores. Século 21, cadê as cores?!

Os carros não são mais coloridos, eles não tem vida.  Parado no trânsito, me sinto assistindo A Lista de Schindler, um cenário caótico, triste e sombrio de tons de cinza, uma variante do preto ao branco, eventualmente quebrados com raras cenas de um vestido vermelho.

E agora sim sendo nostálgico, quem quando criança não se divertia durante uma viagem, contabilizando as ultrapassagens de fuscas, kombis, chevetes, opalas, brasílias, amarelos, azuis, verdes, brancos, beges, cor de fogão, cor da geladeira. Os carros eram vivos, coloridos, e nós quando crianças sabíamos o nome de todos eles.  

Já as crianças de hoje, enfadadas no banco de trás, ficam atentas nas milhares de cores que a tela do celular proporciona, ignorando o mundo monocromático a sua volta. Sim, carro agora é só um meio de transporte, e por sinal, chato.

O conceito de beleza foi singularizado. Carros cinzentos de cara amarrada, traços que remetem agressividade e geram incômodo para quem está em seu caminho.

Já o designer da perua dos anos 50, aqueles olhinhos redondos com um parachoques sorridente, vem de longe esbanjando alegria. Não tem como você não sorrir ao cruzar com uma kombi.

Eu tenho dó, sinto pena da geração descolorida. Das pessoas que não tiveram a oportunidade de curtir a alegria do que é passear de carro e verbalizam que viajar de avião é muito mais rápido, prático e confortável do que ficar preso no trânsito dentro de uma caixa com rodas. O imediatismo típico do século 21, onde não se pode perder tempo, onde tudo que passou está ultrapassado.

Pobre seres humanos, que como os carros modernos, são dignos de pena.

E esse, sem dúvidas, é um dos motivos que me faz gostar das Kombis.

Não conheço muito sobre os modelos, detalhes ou motorização. Nem faço muita questão de saber, pois como tudo nessa vida, quanto menos se conhece, mais paixão se tem.

Eu ainda não tenho uma Kombi.

Mas sabe, um dia vou ter uma. Fico sempre potocando na minha cabeça como ela vai ser. Mais nova? Mais antiga? Tradicional? Ou que tal uma motorhome!  Não… Já sei, uma corujinha, de carroceria branca com saia amarelo fralda ou azul calcinha. Ainda não sei quando e com qual modelo vou me engraçar. Fico só fosforilando…  A única certeza que tenho é que a minha futura kombi não será de garagem. Não vai ser um enfeite ou um item retrô de colecionador. Minha kombi vai ser nervosa, vida loka, viajante, estradeira, 'a' kombosa.

Por hora, continuo com esse amor platônico pelo sorridente veículo em formato de pão de forma, qual um dia hei de possuir um belo exemplar.

E enquanto esse dia não chega, continuo viajando de moto, esperando o momento certo.

E na estrada, ação rotineira, sempre que passo por uma kombi faço questão de apontar e mostrar para minha esposa, dizendo:

Olha, cruzamos com uma kombi da sorte! Hoje nosso dia vai ser mais feliz!

João Ricardo Wilde Neto